Skip to content

O rinoceronte que D. Manuel I ofereceu ao papa Leão X

Uma das principais aspirações do vice-rei da Índia D. Afonso de Albuquerque consistia na construção de uma fortaleza em Diu, cidade que pertencia ao rei de Guzarat, plano cuja concretização dependia, consequentemente, da autorização do monarca, Modofar.

O vice-rei entabulou negociações com Modofar, a quem enviou uma delegação, a qual não conseguiu os objetivos que se propunha junto do monarca, que, não obstante, ofereceu presentes em retribuição dos que lhe haviam sido entregues, entre os quais se destacava um animal «monstruoso» para Afonso de Albuquerque, denominado ganda na língua de Guzarat, que mais não era do que um rinoceronte asiático.

Quando recebeu o paquiderme, o vice-rei decidiu imediatamente embarcá-lo numa nau e enviá-lo para o rei D. Manuel I.

O rinoceronte, o primeiro a pisar solo europeu, chegou ao Tejo a 20 de maio de 1515. O rei mandou organizar um combate entre este animal e um elefante no dia 3 de junho desse mesmo ano.

Quando o rinoceronte se precipitou violentamente contra o elefante, este, aterrorizado, bramiu com energia, lançou-se contra uma das janelas gradeadas, atirou por terra o cornaca, retorceu com a tromba as grades, da grossura de um braço, introduziu a cabeça na abertura, forçou as barras de ferro, que se partiram, e desapareceu numa correria desordenada em direção ao Rossio, onde se situava o seu curral.

Em 1515 existia em Lisboa uma importante colónia alemã. Alguém terá enviado a um amigo alemão uma carta descrevendo o combate, acompanhada de um desenho do rinoceronte. Ambos os documentos chegaram a Nuremberga, às mãos de Albert Dürer, que copiou a carta e a escreveu sobre o desenho original que a acompanhava e que, desde 1830, se conserva no British Museum. Eis a carta transcrita pelo artista:

«No dia 20 de maio de 1515, chegou a Lisboa, para o nosso rei de Portugal, procedente das Índias Orientais, um animal vivo chamado rinoceronte. Para lhe dar uma ideia da estranha aparência deste animal envio-lhe um desenho do mesmo. Tem a cor de um sapo, é extremamente maciço e revestido de escamas. Tem as dimensões de um elefante, o seu inimigo mortal, mas as patas mais curtas. Sobre a região anterior do focinho possui um chifre forte e pontiagudo; quando defronta um elefante em luta, começa por afiar o chifre nas pedras, após o que se precipita contra o adversário, enfiando a cabeça entre as suas patas dianteiras e rasgando-lhe a pele, nessa região menos espessa. O elefante tem o maior receio do rinoceronte, que consegue sempre feri-lo, pois, além de possuir uma presa formidável, é extremamente ágil e arguto. Este paquiderme, denominado Rhinocero em grego e latim, designa-se ganda em indiano.»

Dürer, guiando-se pelo original português, executou cuidadosamente um novo desenho, com o seu monograma A. D., de que se serviu para realizar a sua célebre gravura em madeira intitulada Rhinocerus 1515, publicada nesse mesmo ano, à qual apôs uma legenda baseada no texto da carta enviada de Lisboa com o desenho original.

Conhecem-se 8 edições da famosa gravura de Dürer, das quais o British Museum possui vários exemplares.

Em 1515 D. Manuel decidiu presentear o papa Leão X com o rinoceronte. O animal seguiu para Roma em dezembro desse mesmo ano, a bordo de um navio. Porém, sobreveio uma tempestade no golfo de Génova e o navio afundou-se.

Segundo refere Damião de Góis, o cadáver do rinoceronte deu à costa, foi embalsamado e levado ao sumo pontífice.

Trackbacks

Nenhuns Trackbacks

Comentários

Exibir comentários como Sequencial | Discussão

Nenhum comentário

Adicionar Comentários

Les adresses Email ne sont pas affichées, et sont seulement utilisées pour la communication.

Para evitar o spam por robots automatizados (spambots), agradecemos que introduza os caracteres que vê abaixo no campo de formulário para esse efeito. Certifique-se que o seu navegador gere e aceita cookies, caso contrário o seu comentário não poderá ser registado.
CAPTCHA

Form options