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Gilles de Rais foi um mártir ou um assassino em série?

Para o povo da Bretanha, o dia 15 de setembro de 1440 assemelhou-se provavelmente ao fim do mundo. O barão Gilles de Rais (1405-1440), possuidor de uma fortuna prodigiosa e levando uma vida magnificente, fora preso e acusado de feitiçaria, sacrilégio e do assassínio ritual de crianças.

Mesmo na corte brilhante e extravagante da França do século XV, poucas carreiras haviam sido tão meteóricas como a de Gilles. Herdeiro da maior baronia da Bretanha, combatera com Joana d'Arc contra a Inglaterra e fora marechal de França aos 24 anos. A sua fortuna era tal que o número e o esplendor dos seus castelos só eram ultrapassados pelos do rei.

Então surgiu a desgraça. Os acusadores declararam que Gilles mantinha ao seu serviço um mágico italiano, Francesco Prelati, com a assistência do qual raptara e assassinara um grande número de crianças, cujo sangue usara em poções horrorosas que lhe assegurariam poder mágico sobre os seus inimigos.

No dia 21 de outubro o marechal confessou todos os crimes de que fora acusado e cujo motivo, segundo explicou, residia simplesmente na satisfação das suas paixões. «Afirmo que não houve outro motivo. Não confessei já o suficiente para condenar à morte 10 000 homens?»

Gilles foi enforcado, com os seus cúmplices, em Nantes, antes do fim de outubro. Poucos duvidaram da sua culpabilidade; de facto, nenhum homem, nem mesmo Gilles, poderia certamente ter conseguido tanto sem a assistência do Diabo.

Mas o julgamento foi realizado à porta fechada e surgiram algumas dúvidas que não foram esclarecidas. Os homens de confiança de Gilles foram certamente torturados, e o próprio barão poderá ter sido sujeito ao mesmo tratamento. Seria ele vítima de uma conspiração? Em caso afirmativo, as suspeitas recaíam sobre João, duque da Bretanha, que seria o herdeiro das propriedades de Rais.

Gilles fora um alvo fácil para acusações de feitiçaria, pois desrespeitava as regras da moralidade convencional e interessava-se pela alquimia e astrologia. Além disso, a sua intemperança alimentar, extravagância e os excessos sexuais a que se entregava eram notórios. Este comportamento era talvez lamentável, mas não apareceram de facto provas de que tivesse assassinado crianças.

Mas, então, por que motivo, se era inocente, confessou crimes tão nefastos? Talvez o tivesse feito sob tortura. Mas há uma explicação mais provável.

Gilles sabia que, assim que caísse sob o poder dos seus inimigos, estava condenado; uma vez que a sua vida estava de antemão perdida, a sua única preocupação seria a segurança e o bem-estar da família, que procurou assegurar.

Se Gilles negasse as acusações de que foi alvo e fosse considerado culpado, as suas terras e riquezas seriam confiscadas. Porém, se confessasse e morresse arrependido, a lei providenciaria para que pelo menos parte das suas propriedades revertesse a favor dos filhos.

E assim aconteceu. Embora os castelos de Gilles fossem entregues ao duque da Bretanha, a maior parte da sua riqueza permaneceu nas mãos de sua família, que não foi gravemente afetada. Alguns dos seus familiares alcançaram cargos elevados ao serviço do rei – mas nenhum se tornou tão perigosamente rico e poderoso como o próprio Gilles.

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