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O reino do Prestes João: um país que desconhecia a pobreza e o vício

No começo do século XX, alguns missionários portugueses estabelecidos no reino da Etiópia descobriram antigas bandeiras e espadas cristãs, transmitidas de geração para geração, juntamente com a lenda de terem pertencido um dia a um soberano cristão de aparência divina.

Teria sido esse rei o lendário Prestes João? Durante séculos, persistiram as histórias que consignavam a existência de um rei-sacerdote fabulosamente rico e da sua misteriosa terra situada no Oriente, onde reinavam a paz e a justiça e se desconheciam o vício e a pobreza.

Era também uma terra de maravilhas. Na Idade Média, um viajante escreveu: «Nesta região não crescem ervas venenosas nem se ouve o coaxar ruidoso das rãs; não existem escorpiões, nem a serpente desliza por entre a erva alta.»

Objetivo difícil de alcançar

Chegar até esse reino supunha uma viagem verdadeiramente apavorante. No deserto viviam selvagens «de aspecto temível; usam chifres, não falam e apenas grunhem como porcos». Em outras regiões havia pigmeus, gigantes e, finalmente, uma raça aterrorizante «que se alimenta de carne humana e de crias prematuras e que não nutre qualquer receio pela morte».

«Quando algum destes homens morre, os seus amigos e parentes devoram-no sofregamente, pois consideram seu dever principal mastigar carne humana. Conduzimo-los facilmente contra os nossos inimigos, dos quais não ficou homem nem animal que não tivessem devorado. Uma vez todos os nossos inimigos devorados, regressámos com os nossos anfitriões.»

O palácio do Prestes João, de cristal, era revestido de pedras preciosas. Um espelho mágico avisava-o de qualquer conspiração iminente.

A fonte da juventude

O rei dormia num leito de safiras. Os seus trajes eram feitos de lã de salamandra e purificados ao fogo. Os seus guerreiros cavalgavam através dos ares sobre dragões selados, percorrendo os céus. A fonte da juventude era acessível a todos, e o próprio rei contava 562 anos.

O Prestes João – cujo primeiro nome significava sacerdote – era considerado o chefe dos nestorianos, uma primitiva seita cristã, e descendente de um dos 3 reis que visitaram Jesus Menino.

Segundo parece, os primeiros relatos sobre este monarca foram divulgados no ano de 1145 pelo bispo Hugo de Gebel (atual Líbano). Os cristãos nestorianos participaram nas lutas vitoriosas do conquistador mongol Yeh-lu Tah-shi, e o próprio bispo poderá ter deliberadamente confundido as narrativas com a intenção premeditada de fazer crer que os conquistadores professavam a religião cristã.

Posteriormente, no ano de 1165, circulou pelas várias cortes da Europa uma carta falsificada, da qual existem ainda várias cópias, uma no Museu Britânico. Supostamente escrita pelo próprio Prestes João e dirigida ao imperador bizantino Manuel, refere-se àquele como senhor da Índia e «rei dos reis».

Em 1177 o papa Alexandre III enviou uma carta a «João, o ilustre e magnificente rei das Índias», na qual autorizava o monarca a construir um santuário em Roma, procedendo assim à unificação da Igreja Cristã.

A lenda foi obliterada até 1221, ano em que um ilustre prelado – o bispo de Acre – informou Roma de que o rei David da Índia (provavelmente o conquistador tártaro Genghis Khan) era supostamente um neto do famoso Prestes João.

As histórias sobre o célebre monarca reviveram com tal intensidade que famosos viajantes, como Giovani de Monte Corvino e Marco Polo, tentaram, embora sem alcançarem qualquer êxito, encontrar o reino do Prestes João.

Na segunda metade do século XIV a atenção concentrou-se na Abissínia, a atual Etiópia, da qual se cria que Prestes João era o rei cristão.

Alguns eruditos modernos ventilaram a hipótese de João ser apenas uma alteração fonética de Zan, o título real da Etiópia. A dinastia real do país, cristão desde o século IV, fundada no ano de 1270, afirma-se descendente direta do rei Salomão e da rainha de Sabá.

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