Skip to content

O ouro do faraó Tutancámon

Howard Carter começava a desesperar. Havia perto de 20 anos que procurava o túmulo do jovem faraó Tutancámon. Em breve se lhe esgotaria o capital necessário ao financiamento do objetivo que se propusera. Pressentia já o ceticismo crescente e até a troça dos seus colegas. Mas a razão por que se tornava mais difícil para o erudito inglês suportar a perspectiva do malogro era o facto de continuar convencido de que o túmulo se encontrava algures no Vale dos Reis, local da antiga capital de Tebas, pois o templo próximo de Luxor ostentava inscrições sobre o rei Tutancámon. Além do mais, Carter estava seriamente convencido de que o túmulo nunca fora saqueado, pois jamais fora noticiado o aparecimento de qualquer dos seus despojos.

Mas tudo quanto encontrara, havia 15 anos, limitava-se a recipientes com roupas ostentando o nome do faraó. Desde então, Carter explorara praticamente todo o vale, sem conseguir encontrar quaisquer vestígios do jovem rei, que morrera com a idade de 19 anos.

Ao caminhar ao longo da areia fria da manhã, em direção às suas escavações, Carter pensava de novo no seu patrocinador, o arqueólogo amador Lord Carnarvon, e recordava-se do último encontro que tivera com o par do reino, na sua casa de Highclere, no condado do Hampshire, em Inglaterra.

Carnarvon quisera suspender a busca: «Já me custou uma fortuna – declarara decididamente a Carter. – Não posso suportar esta despesa.»

Mas Carter rogou-lhe que financiasse mais uma tentativa. «Está bem, Howard – cedeu Carnarvon, rindo. – Sou um jogador. Dou-lhe o dinheiro para mais um lance, mas depois retiro-me. Onde vamos começar?» Carter mostrou-lhe um mapa do vale, indicando uma pequena área triangular que não fora ainda explorada, pois encontrava-se nas proximidades do túmulo de Ramsés VI. «Aqui – disse ao seu patrocinador. – É o único lugar que falta.»

Agora, à medida que se aproximava da escavação, Carter reflectia no que parecia o fim sombrio do seu sonho. Tanto ele como os seus homens não tinham senão encontrado os restos das barracas usadas pelos operários que haviam construído o túmulo de Ramsés. Durante 3 dias não tinham cessado de remover esses fragmentos sem conseguirem descobrir o que quer que fosse.

Quando Carter chegou ao local, o capataz, Ali, correu ao seu encontro. «Descobrimos um degrau escavado no solo», anunciou. Dentro de 2 dias tinham descoberto uma escadaria que conduzia a uma porta selada. Carter imediatamente telegrafou a Carnarvon:

FINALMENTE. GRANDE DESCOBERTA NO VALE. TÚMULO MAGNÍFICO. COM SELOS INTACTOS. AGUARDAMOS A SUA CHEGADA. FELICITAÇÕES.

O telegrama estava datado de 6 de novembro de 1922.

Após a chegada de Carnarvon, decorreram ainda mais alguns dias até conseguirem abrir a porta e remover as pedras que bloqueavam a entrada. Os dois homens encontraram-se então perante uma segunda porta selada.

Para Carter chegara a hora da verdade. Observado atentamente por Carnarvon, inclinado sobre o seu ombro, Carter abriu na porta um orifício suficientemente grande que lhe permitisse fazer passar uma vela através dele e espreitar para o interior. Mais tarde, escreveu:

«A princípio não consegui ver nada, pois o ar quente da câmara fazia tremular a vela. Porém, à medida que os meus olhos se acostumavam à luz, comecei a distinguir lentamente os pormenores da sala: animais estranhos, estátuas e ouro – por toda a parte o brilho do ouro.

Por momentos – que devem ter parecido uma eternidade a todos quantos se encontravam a meu lado – permaneci mudo de assombro; e, quando Lord Carnarvon, incapaz de suportar por mais tempo a expectativa, perguntou ansiosamente: – Vê alguma coisa? –, só consegui articular: – Vejo – coisas maravilhosas.»

O recinto do sepulcro compunha-se de 4 câmaras contendo cofres, vasos, um trono de ouro incrustado de pedras preciosas, jóias, mobiliário, roupas e armas. Na câmara funerária propriamente dita, flanqueada por 2 estátuas negras, havia 4 sacrários de ouro, uns dentro dos outros, e um sarcófago contendo 3 caixões.

Laivos de cor

O caixão interior, de ouro maciço, continha o corpo mumificado de Tutancámon envolto num sudário recamado de jóias. O rosto do faraó estava protegido por uma máscara de ouro com incrustações de quartzo e lápis-lazúli, de uma extrema riqueza. Rodeava-lhe o pescoço e o peito uma grinalda de centáureas, lírios e lótus – provavelmente uma derradeira oferta da jovem esposa do faraó, a rainha Ankhesnamun. Após 3300 anos na escuridão impenetrável do sepulcro, conservavam ainda laivos de cor.

O conteúdo do túmulo era de um valor incalculável. Reflectia todos os aspectos da vida dos lendários faraós do Egito, 1350 anos a.C. Para Carter e para o seu patrocinador, Carnarvon, a pesquisa implicara momentos de desânimo e frustração. Mas a recompensa final – a mais fabulosa de todas as descobertas arqueológicas – compensou-os largamente de todos os contratempos anteriores.

Trackbacks

Nenhuns Trackbacks

Comentários

Exibir comentários como Sequencial | Discussão

Nenhum comentário

Adicionar Comentários

Les adresses Email ne sont pas affichées, et sont seulement utilisées pour la communication.

Para evitar o spam por robots automatizados (spambots), agradecemos que introduza os caracteres que vê abaixo no campo de formulário para esse efeito. Certifique-se que o seu navegador gere e aceita cookies, caso contrário o seu comentário não poderá ser registado.
CAPTCHA

Form options