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Peste Negra: a doença que alterou o curso da História

Deveu-se à ganância dos caçadores de peles a última grande epidemia de peste bubónica, que em 7 meses apenas causou 60 000 vítimas.

Aconteceu na Sibéria Oriental, em 1910, depois de, em consequência da procura mundial, o preço de peles de marmota ter sofrido um aumento de 400%. Este animal, um roedor cuja pele é vendida como um substituto da marta zibelina, fora até então tradicionalmente caçado pelos Mongóis, que conheciam os seus hábitos – e a estranha doença que por vezes o atacava.

Nenhum mongol caçaria um animal doente e, embora a carne e a gordura de uma marmota fossem consideradas saborosas, uma interdição local proibia o consumo em alimentação da excrescência de tecido gordo sob o baço – uma glândula linfática auxiliar, a qual, segundo a lenda, continha a alma de um caçador morto. Era do conhecimento dos Mongóis que a doença afetava facilmente esta glândula e infectava por vezes os homens, pelo que um caçador doente era irrevogavelmente abandonado ao seu destino, cruel embora.

Em 1910 seguiram para a Manchúria do Norte milhares de chineses, interessados no vantajoso aumento do valor das peles. Estes não só se aproveitaram da facilidade que representava a caça aos animais doentes como tratavam cuidadosamente os caçadores que adoeciam, ignorando que a doença contraída por contágio dos animais era a peste bubónica.

A peste alastrou das áreas de caça para a cidade de Manchuli, o término do caminho de ferro oriental chinês. Finalmente, propagou-se por 2700 km ao longo da linha férrea, matando dezenas de milhares de pessoas.

Disseminada pelas moscas

A peste não é habitualmente uma doença humana, mas de ratos. É causada por bactérias – microrganismos cujas dimensões pouco excedem 1 milésimo de milímetro – e transportada pelas moscas de um roedor para outro.

Há duas espécies principais da doença: a bubónica e a pneumónica. Quando se é mordido por uma mosca que transporte a bactéria da doença, colhida num roedor infectado, surgem uns inchaços, ou bubões, no local da mordedura, sob o braço ou na virilha, os quais justificam o nome da peste bubónica. A peste pneumónica, contraída por respiração quando se inspira a bactéria, por exemplo por contato com um roedor infectado, é depois transmitida de pessoa para pessoa através da respiração.

Durante uma epidemia, ou pandemia, como as grandes epidemias são denominadas, pode ser infectada uma percentagem da população que atinja os 90%. De entre aqueles que contraem a peste bubónica, entre 60% e 80% morrem. Na peste pneumónica a taxa de mortalidade, superior a 99%, é ainda mais elevada.

O homem parece ter sofrido epidemias de peste desde o começo dos tempos registados na História. Em Babilónia, no ano 3000 a.C., houve uma peste denominada Mamtar, o demónio da peste.

Pode dizer-se que a peste, que vitimou centenas de milhões de pessoas, alterou o curso da História.

No ano 54 da nossa era, a peste mais devastadora que o mundo conheceu começou a disseminar-se a partir do Egito, ao longo das grandes rotas comerciais. Atravessou a Ásia Menor e atingiu Constantinopla, a Grécia e a Itália, chegando até ao Reno.

Durante um período de 52 anos, a doença dizimou a população, calculando-se que tenham morrido 100 milhões de pessoas – uma grande parte da população do mundo então conhecido.

Com o declínio do Império Romano e a consequente interrupção das rotas comerciais, durante 8 séculos a peste foi praticamente esquecida. No entanto, na sua Crónica Anglo-Saxónica, o venerável Beda faz-lhe referência quando escreve acerca de uma «grande pestilência» na Inglaterra e Irlanda no ano 664, descrevendo especificamente o que só pode ser um bubão.

Cemitério para as vítimas

No princípio do século XIII, missionários da seita nestoriana – um grupo que acreditava, entre outras coisas, que Cristo tinha dois rostos – começaram a percorrer as novas estradas entre a Europa e a Ásia. Foram descobertas, ao longo destas estradas, sepulturas de missionários datando de 1338 e 1339, alguns dos quais se sabe terem contraído a peste na Mongólia Exterior. Crê-se que a contaminação destes viandantes, conjugada com a existência da ratazana vulgar na Europa (notada a partir do século XII) foi a causa principal da morte negra, que assolou o continente europeu nos 60 anos seguintes e continuou a aterrorizar o mundo durante quase 4 séculos.

Morte terrível

A expressão «peste negra», criada no século XIV, tem a sua origem na utilização da palavra «negra», no latim medieval, com o significado de terrível.

Em 1348 cerca de 1 milhão de vítimas morreram em Florença. No mesmo ano, o papa Clemente VI, que então residia em Avinhão, propôs uma peregrinação a Roma. Nessa viagem, de cerca de 800 km, mais de 1 milhão de peregrinos partiram, dos quais só regressaram 100 000.

Quando a epidemia atingiu o auge, o rio Ródano foi utilizado como cemitério para as vítimas, que se tornava impossível sepultar.

Cerca do final do século XIV, a peste vitimara já 25 milhões de pessoas – a quarta parte da população mundial conhecida.

De acordo com um cálculo, verificaram-se 45 surtos de peste entre 1500 e 1720. O mais conhecido atingiu Londres em junho de 1665.

Um dos métodos preventivos usados em Londres contra a propagação da peste foi queimar gatos, cães, ratos e ratazanas. Esta precaução, porém, foi demasiado tardia. Cerca de 1666 mais de 68 000 londrinos tinham morrido, e a Europa receava outra pandemia. Foi então que, a 2 de setembro desse ano, se declarou um incêndio em Pudding Lane, no centro da área mais populosa de Londres. O fogo alastrou durante 4 dias, devastando quatro quintos da cidade, mas eliminando as condições anti-higiénicas que tinham contribuído para a propagação do contágio.

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