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O Martelo de Rubinero - Da Escuridão

Pouco depois de deixar o homem cansado, a noite já se instalava, e Rubinero resolveu parar para descansar. Procurando ao seu redor por um local digno da sua estadia, acabou por escolher sentar-se em cima de um ramo robusto, que quase abraçava o solo, pertencente a uma das árvores mais vitoriosas do bosque, altíssima e senhora de si mesma. A escuridão que a ausência do astro-rei provoca rapidamente chegou, mas o seguidor da sua virtude, sem a temer, lhe falou assim:

"Escuridão, mas pensas tu que me amedrontas? Diariamente te encontro, e assim sempre terá de acontecer. A roda do destino presenteia os homens com a luz do Sol para depois lhes oferecer a sua tenebrosa ausência, e assim segue a natureza no seu ciclo eterno. O tempo é circular, e do seu próprio bem nasce o seu mais profundo mal.

O teu silêncio, como todos os silêncios, é retumbante! Tão ensurdecedor que perfura até os tímpanos mais resistentes! Que ele venha ao meu encontro de tempos a tempos, quando eu mais precisar dele, pois certas palavras necessitam de encontrar ouvidos saudáveis e vigorosos, dispostos a construir um novo amanhã.

Pois bem, escuridão, recebo o teu silêncio com alegria, e que o mesmo se multiplique como as tartarugas-marinhas, que emergem em conjunto das areias, durante o teu domínio, para rapidamente se dirigirem para o oceano, onde a maioria encontra o seu fim.

Queria eu que o grande astro poderoso nunca abandonasse a sua virtude, e esse meu desejo está sempre satisfeito. Pois o corpo celeste que tudo ilumina sempre se dá, e ainda quer dar mais, levando a sua luz para os abismos que também necessitam da sua verdade.

Sim, a verdade é nascimento, e ainda acabamento! A minha virtude, tal como a do Sol, quer levar a todos os homens o excesso do seu conhecimento, e depois ainda dar e voltar a dar até que finalmente se extingue. E se este cálice de fogo não transbordar, então que o faça o meu orgulho!

Não, mil vezes não, escuridão não vencerás o meu nobre destino, e a mais alta possibilidade que me vivifica em direção à cumeada, tal como um dardo arremessado pelo coração mais puro que já existiu, o do deus Apolo, que matava de longe e, em certas ocasiões, de baixo para cima!

Mas esse deus, e todos os demais deuses, já foram enterrados, e foram os homens quem os enterraram! Os homens criaram e mataram todos os deuses! E, escuridão, se eu não te criei, acaso devo-te matar? Não é esse o meu ofício, mas sim o de criar monumentos imorredouros.

Quem te deve exterminar, e incessantemente o faz, é o astro do dia, que brevemente emergirá das profundezas, como o falecido Tritão; e tal como o filho do rei dos mares era, com o seu búzio, o mensageiro da chegada de Posídon, eu te anuncio o retorno da nossa estrela, que dará início a mais um dia de combate no mar, na terra e no ar.

Pois em todos os lugares vejo guerra, crescimento, expansão e vontade de vencer! Da morte surge a vida, e a vida produz a morte, num constante girar tumultuoso do arco da fortuna, que gira sobre si próprio continuamente, desprezando todas as fraquezas e presenteando os vencedores com tudo aquilo a que têm direito.

Eu te abraço, escuridão, pois também tu és criadora. O mais alto sofrimento também é capaz de criar, porque as sombras procuram a luz e, de igual modo, o sofrimento procura a vitória!

Na tua negrura, e na tua dor, eu vislumbro a virtude de cada homem que encontro, pois também a sua virtude quer sair das profundezas do seu corpo para o dominar totalmente, e assim estabelecer um único objetivo, uma só direção, e um só fim para as suas ações.

Vamos, mais um abraço, escuridão amiga, e juntos ficaremos, mas só por alguns momentos; visto que, em primeiro lugar, Rubinero não é homem para desviar-se do seu caminho e, por último, como quero ensinar aos homens, a obscuridade deve apenas gerar e não atormentar. Já existem demasiadas obscuridades que nada mais fazem do que amargar, mas raras são aquelas que abanam e despertam a quem afligem.

No entanto, também o sono chama por mim, para oferecer-me sonhos que considera belos, dado que desconhece a natureza da realidade, em si mesmo é o oposto da vida. Mas, também isso tem uma razão de ser: sem sono, e sem sonhos, o anelo que move a terra e lhe dá sentido acabaria por autodestruir-se, de tanto querer os pináculos mais remotos!".

E depois de alguns abraços, alguns maiores e outros menores, deitou-se Rubinero no mesmo ramo onde até então tinha estado sentado, e imediatamente adormeceu, para no dia seguinte esperar a chegada da aurora, deixando a escuridão entregue a si própria.

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