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O Martelo de Rubinero - Do Homem Cansado

Entrava Rubinero no bosque que anuncia a grande inclinação, que tem por destino a orgulhosa cumeada, quando ouviu um grito que lhe parecia vir de um homem cansado. Sobressaltado com a surpresa, seguiu na direção de onde lhe pareceu vir o anúncio de uma grande tristeza. Após poucos minutos, deparou-se com uma figura sorridente, sentada num monte de ervas daninhas e que tinha por tradição corporal nada de novo fazer.

"Meu amigo, quem és tu? Qual é a causa do teu grito? Acaso algum bicho te mordeu? — perguntou Rubinero. — Eu venho para trazer bem-aventurança e boas-novas a esta montanha, no meu domínio compadeço-me com aqueles que não estão bem, pois a mim mesmo permito ocasionalmente essa fraqueza. Fala comigo sobre o que te aflige, homem de sorriso amarelo".

Permanecendo sentado, o homem sorridente pôs a sua língua a trabalhar, soltando as seguintes palavras:

"Eu ouvi os teus passos, e também escutei a conversa que há pouco tiveste com o súbdito de Dionísio, enquanto apanhava frutos para alegrar o meu estômago. Desculpa, mas sou como as mulheres, a minha curiosidade é maior do que o meu amor.

Com que então queres subir a montanha para anunciar aos homens uma nova verdade? Não sabes tu que nada de novo há debaixo do Sol? Tudo é igual, por baixo das pontes correm sempre as mesmas águas, já desgastadas e enfastiadas do seu eterno desaguamento no mesmo mar.

Mas diz-me: por acaso o teu nome não é Rubinero? Sim, és Rubinero. Lembro-me de passar por ti na cidade, e de uma criança te chamar por esse nome. Nessa altura carregavas nas tuas mãos ferro enferrujado, vejo que agora levas um martelo de diamante. Que aconteceu contigo? Como te tornaste bailarino, tu que não sabias dançar?

Levas uma nova verdade aos homens? Mas que verdade é essa? Todas as verdades morreram! O que interessa hoje é um bom despertar, uma boa alegria e uma pequena tristeza para terminar o dia. Por isso sorrio sempre, porque pouco peço. Os dias passam alegremente neste bosque, tenho muitos frutos para comer e muitas árvores que ouvem pacientemente as minhas divagações.

Afasta-te da montanha Rubinero, nada de novo tens para dizer. Nada de novo há para saber, já tudo se sabe! A verdade dos homens é um lago límpido onde os peixes nadam tranquilamente. Tudo acontece da mesma forma, e isso é bom conquanto aconteça suavemente.

Antigamente os homens eram loucos e estúpidos, hoje somos sãos e inteligentes. Por isso gritei, de modo a chamar a tua atenção. Volta para a tua habitação, e abandona lugares onde o vento viaja solitariamente, onde não encontra nenhuma alma para o receber".

Rubinero escutou atentamente, e no final sentiu um grande nojo do homem sorridente, tal como a águia sente nojo dos abutres que nada arriscam e que só se dirigem para corpos inertes. E falou para as árvores e para o fantasma que se apresenta como um homem da seguinte forma:

"Árvores, vejam! Encontrei aquele que já conheço muito bem e torno a conhecer repetidamente! Acaso tenho eu de ouvir os teus lamentos, homem que estás morto em vida? Neles só encontro uma virtude que não cresce por falta de um solo prodigioso, e que na realidade já morreu antes de iluminar os arredores.

Homem que sorris, o teu cansaço é lamento e tristeza. O que mais me espanta é que a tua parcimónia não se quer extinguir, de si mesma não se farta.

Queria eu que todos os homens conhecessem a sua virtude! Pois nela a sua tristeza desapareceria, como todas as pedras lançadas ao rio rapidamente ultrapassam a sua superfície e para sempre a esquecem.

Homem cansado, és mentiroso! Não és companhia para mim! A minha companhia são as crianças, porque perante os olhos dos pequenos tudo é novo e só existem grandes promessas. Para as crianças, o mundo é um eterno começo e uma roda que no seu perpétuo girar espalha uma infinita alegria que anima até os horizontes mais distantes e sombrios.

Que a tua imundície fique longe de mim! Estás a poluir o bosque, preferiria eu encontrar um cadáver divertido que seria certamente uma melhor companhia. Na tua sabedoria só encontro loucura. Morre de uma vez! Mas que não sejas enterrado, já existem tantos cadáveres que a terra não quer absorver.

Inúmeros caminhos há para trilhar! Muito há para conhecer, amar, odiar e acabar! E que todos os acabamentos se materializem em harpas douradas, com cordas perfeitas que ao vibrarem produzem novas músicas, mais sublimes, belas e profundas do que as anteriores.

Existem tantos sentidos que querem trazer certeza às ações! A virtude quer dar às ações múltiplos sentidos, mas só uma direção, e que as mesmas sejam continuamente um novo fim e um novo começo, tal como a aurora sempre termina com a noite para anunciar novas conquistas e novas oportunidades".

O homem abatido, mas sempre sorridente, ficou, entretanto, assustado e disse a Rubinero: "Queres dar-me mais uma virtude!? Mas já tenho tantas: dou esmolas sempre que vou à cidade, sou um bom homem e nunca matei ninguém. Vivo contente e satisfeito, e não falo mal de pessoa alguma, pelo menos quando a mesma está na minha presença.

Já existem muitas virtudes. Queres sobrecarregar os homens com mais uma? Por que não nos dás, em vez disso, um pequeno prazer ou uma novidade, ou talvez um pequeno movimento sem sentido ou uma breve ação que nada cria e tampouco destrói, pois são sempre coisas muito apetecíveis para nós, homens espertos e esclarecidos?".

Rubinero respondeu altivamente: "Falei de virtude, não de piedade ou do crepúsculo que fez do teu corpo a sua residência". — "Mas não é isso virtude? — perguntou o homem, boquiaberto! — Não é um pequeno bem, honestidade e retidão no comportamento?".

"Eu falo para o grande cansaço com a clareza necessária, mas ele não compreende as minhas palavras — pensou Rubinero, e assim continuou mais um pouco a pensar... — Pois tanto ele como as suas cópias desconhecem a sua virtude, que está sufocada pela confusão criada pelas suas fraquezas. O corpo dos homens é uma guerra, mas na guerra eles só vislumbram a paz e não enxergam o sangue que quer correr para cima, que se quer lançar para as alturas!".

E depois dos pensamentos, disse Rubinero ao sorridente: "Chegará em breve o dono da sua virtude, para destruir a tua parcimónia miserável. Agora te deixo, pois o cansaço não habita na minha alma, só a alegria das crianças. Fica com a tua sabedoria, que eu ficarei com o meu regozijo".

"Espera Rubinero! — disse o homem ansiosamente, enquanto se levantava das ervas daninhas. — Eu te peço: deixa comigo uma verdade sobre a virtude de que falas, ou sobre esse Dono da Sua Virtude que referiste, pois por aqui passam muitos homens, e sempre lhes digo as mesmas coisas e quero lhes dizer algo de novo. Acaso não sou eu amante de novidades?

Sei que há bocado afirmaste ao velho que a tua sabedoria deverá ser lançada da cumeada, mas deixa comigo algum do teu conhecimento, pois por mim passam muitos bons ouvintes e de vez em quando alguns surdos. Mas se os surdos não conseguirem escutar a tua verdade com os ouvidos, talvez a escutem com os olhos ou com os narizes!".

Rubinero aí se deteve, e após pensar demoradamente sobre se deveria aceder ou não ao pedido, resolveu satisfazer o desejo do homem que não vive mas que apenas se conserva, e lhe falou assim: "Muito bem, diz a cada adormecido que passar por ti o seguinte:

A tua virtude é uma semente que quer germinar, para dominar o teu corpo e obedecer ao sentido da vida, e, tal como as árvores deste bosque, quer crescer em direção aos céus, para ser um novo sol entre os homens, e aí, só aí no alto resplandecente, quer ainda extinguir-se como uma supernova; pois a tua virtude quer vencer e, consumada a sua vitória, terá, necessariamente, de morrer!".

Rubinero deixou então para trás o homem do grande cansaço, sentindo-se jubiloso e astuto, tal como a serpente se sente ao capturar uma presa pela qual esperou demasiado tempo.

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